Sobrevivendo em tempos de ditadura da beleza

Sou adepta das redes sociais, aproveito qualquer minutinho livre pra checar as notificações do Faceboook ou do Instagram, e não, não tenho vergonha em assumir. Recentemente, graças à enorme quantidade de tempo livre que as férias têm me proporcionado, passei a notar que grande parte das atualizações do meu feed eram relacionadas a assuntos fitness: blogueiras fitness, dietas malucas, fotos de saladas, “projetos” (#projetoverão, pois é), a quilometragem da última corrida, selfies na academia , fotos de barrigas (tanquinho) e mil e uma curtidas em fotos de celebridades.

É sabido que na sociedade contemporânea houve uma intensificação do culto ao corpo. A procura do “corpo perfeito” coloca-se hoje como prioridade em qualquer faixa etária e em qualquer classe social, o que não é de se espantar, já que vivemos bombardeados por ideais de beleza criados pela mídia. Na televisão, salvo raríssimas exceções, todas as mulheres são magras e todos os homens são sarados, as revistas possuem seções inteiras dedicadas a dietas milagrosas e a exercícios que prometem acabar com todas as falhas do corpo e os anúncios nos ensinam o que temos que comprar para melhorarmos nossa aparência. Essa supervalorização da estética nos é imposta de tal maneira que é quase impossível não deixá-la influenciar nossa visão sobre o corpo, na maioria das vezes acabamos incorporando seu discurso e reproduzindo-o.

Nesses tempos de ditadura da beleza, a manutenção dos atributos físicos se tornou mais importante que o caráter e frequentemente, quase sempre inconscientemente, relacionamos as qualidades morais com a aparência. Por vezes associamos a gordura à falta de obstinação (esquecendo que estar acima do peso pode não ser uma escolha do indivíduo) e isso faz com que seja comum darmos mais valor a alguém com um corpo atlético e desprezarmos outro mais gordinho, o que pode se tornar tão sério que passa a se encaixar no termo “gordofobia”, ou seja, repúdio a pessoas gordas.

Outra prática característica desse apogeu do culto ao corpo em que estamos inseridos é a glamourização da magreza. Ela se dá toda vez que elogiamos alguém utilizando o adjetivo magro, como se ser magro fosse a melhor coisa do mundo. Ela também se dá todas as vezes que acreditamos que ser magro nos trará felicidade. Ser magro não passa de uma característica física, não é sinônimo de saúde, de beleza e nem de superioridade.

As consequências que essa valorização excessiva do corpo pode trazer são tristes. Se tornam cada vez mais frequentes os casos de baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares e os casos de hiper vigilância corporal (pessoas que se pesam e se olham no espelho o tempo todo procurando – e encontrando – defeitos, mesmo onde eles não existem). As cirurgias estéticas são cada vez mais comuns e em pessoas cada vez mais jovens (de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica). Os casos de pessoas famosas – ou não – que passaram dos limites na busca pela perfeição estética são cada vez mais corriqueiros.

E como sobreviver nessa sociedade que supervaloriza a beleza? Acredito que ter uma visão crítica sobre tudo o que vemos e ouvimos é essencial para não se deixar afetar. Comer brigadeiro com as suas amigas não é “gordice”, ao contrário do que muitas blogueiras da geração saúde falam (mesmo se for, qual o problema com gordices?). A auto-aceitação também é um importante passo, sem ela muitas conquistas podem ser prejudicadas pela ausência de um corpo perfeito. Pensa bem, vale a pena deixar de ir à piscina com seus amigos porque o biquíni mostra sua barriguinha? Sempre lembrar que não existe Photoshop na vida real, principalmente quando for folhear uma revista também é uma boa. Não se engane, todo mundo tem celuite, TODO MUNDO, até a Beyoncé.

Minha conclusão depois disso tudo? Parar de seguir blogs fitness, pelo bem da minha sanidade mental.

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Um comentário em “Sobrevivendo em tempos de ditadura da beleza

  1. Felipe

    Que texto maravilhoso!
    Parabéns Aninha pela maravilhosa crítica à cultura da beleza magra.
    Hoje em dia todxs somos bombardeados por esses corpos perfeitos que não existem na vida sem Photoshop. Mesmo.
    E isso se intensifica com as mulheres, já que o machismo TÁ tão aliado desse padrão quanto qualquer outra opressão. A negra só é bonita se magra; o gay, só com tanquinho; a india, só com cabelo bem liso, corpo que “dê pra ficar nua como os de 1500”. São buscados traços de perfeição corporal mais que caráter. Êta sociedade louca.
    Parabéns novamente pela análise!

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