Por que está na hora dos olhos se abrirem de verdade?

Em quatro anos de instituição, já vi muita opressão por aqui. E não é supervalorização de um microuniverso não. Não é também porque sou alvo de uma das muitas vertentes preconceituosas que existem na nossa faculdade, tanto porque nossa FAMERP é apenas um reflexo mais visível das relações de poder que temos na sociedade e que necessitam de opressões diversas para se manterem e se reproduzirem por ai. Nós, xs que visualizamos tais fatos, apenas vemos porque num espaço amostral menor, os erros estatísticos se evidenciam mais fortemente, como aprendido em aulas durante a graduação. Mas aqui repetirei para que isso fique para reflexão: somos APENAS um reflexo da sociedade. Isso não retira a culpa pelos atos preconceituosos que são realizados, mas trazem uma origem e uma referência social, e das mais tristes.

Vou começar com o lado que mais me afeta: a homolesbotransfobia. É visível, aos que querem ver, o preconceito que temos contra o segmento LGBT dentro da nossa instituição, seja pelo alunado, seja por docentes. Ser gay e ser drag não é fácil em nenhum local, mas receber olhares de estranheza por vestir algo que te caracteriza diferente no dia-a-dia, ou fazer uma apresentação de drag na faculdade sob olhares e comentários de ódio (não de todxs, agradeço o apoio daquelxs que apoiaram e me apoiam), ou ser alvo de comentários discriminatórios em grupos fechados de whatsapp, só evidenciam que precisamos aumentar as ações de respeito dentro da nossa faculdade. Sou apenas um colega de curso – cidadão também, tanto quanto qualquer umx da faculdade -, mas, na nossa profissão, temos que saber que o diferente é algo corriqueiro: umx paciente LGBT não merece passar por discriminação dentro do serviço de saúde apenas porque você acha que elx está erradx. Você é que está, seu preconceito é que está.

No total de estudantes da faculdade, a maioria são mulheres. Porém, não vemos muita igualdade dentro dos espaços, tanto em festas como dentro do hospital. Podemos até negar, mas existe machismo sim! A medicina é machista, nós somos machistas. Tentativas de trazer a figura feminina para o destaque viram motivo de piada dentro da nossa faculdade e isso só mostra o quanto preconceituosxs com as mulheres nós somos. Ser machista não é só bater em mulher. É achar que elas devem pagar menos nas festas para que venham em maior número e assim atrair mais homens, ou por achar que elas bebem menos (não caiamos nessa, por favor). É achar que sua namorada não pode usar a roupa que ela quiser para sair, seja curta ou longa, que mostre ou não alguma parte do corpo. Ou quando meninas são chamadas de biscate ou putas por ficarem com mais de um menino numa festa, ou na Pré-Intermed, ou durante um ano, ou durante os seis anos. A monogamia só funciona para elas, porque para os homens o que vale é número. De tantas outras pautas somos reprodutores de preconceito – no racismo ou criminalização do pobre dentro da faculdade pública, por exemplo – que nós precisamos aprofundar o debate e a luta dentro da nossa instituição.

Não somos educados para pensar, nem para refletir sobre o processo de construção da sociedade, que coloca as minorias no canto e espreme-as para sangrar. Precisamos quebrar essas correntes dentro da FAMERP, urgentemente. Na concepção de universidade, um dos principais pilares é a pluralidade, seja de ideias, de pessoas, de conceitos, de disciplinas ou de modos de vivência. Precisamos criar espaços dentro da nossa faculdade que propiciem o debate sobre tais temas, que façam os estudantes refletirem e entenderem que talvez a culpa de pensar de tal forma não seja culpa de ninguém, mas do sistema sócio-econômico-político vigente (lembrando que a reprodução é culpa de cada um). Sem discussão não há mudanças. Todxs somos carregadxs de preconceitos, sobre um ou outro assunto, e como futuros profissionais de saúde e cidadãos precisamos querer mudar isso.

Não vejam os espaços de discussão criados como apenas “papo de gay” ou “lá vem aquelas mulheres de novo, falando que são iguais”. Diálogo, a base da construção social, é pra isso que tais espaços servem, mesmo que seja para você construir um argumento contrário ao que está sendo dito nesse texto.

Por esses e tantos outros motivos, convido à todxs a participarem, criarem, coordenarem tais discussões dentro da nossa FAMERP. Só dessa forma teremos melhoras, na construção conjunta de uma universidade plural!

Há braços,
De luta e de amor.

Vivara Guevara

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2 comentários em “Por que está na hora dos olhos se abrirem de verdade?

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