Patrimônio Desconhecido

Floresta Amazonica

Ocupando 5,5 milhões de quilômetros quadrados, fazendo parte de 9 diferentes países e considerada a de maior biodiversidade no mundo, a Floresta Amazônica tem cerca de 60% de seu território dentro do Brasil. O ecossistema abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, reservas minerais, culturas indígenas diversas e, o mais preocupante, o desconhecimento humano frente a todos esses possíveis recursos.Estima-se que aproximadamente 1% de tamanha variedade biológica tenha sido devidamente estudada do ponto de vista químico e farmacológico, com vistas a aprimorar tratamentos, técnicas clínicas e/ou proporcionar a cura de doenças. Um exemplo é o curare, feito de compostos orgânicos ali encontrados, que é utilizado na ponta de flechas por indígenas da região, produzindo efeito paralisante, e por vezes letal, em suas vítimas. Hoje, no campo medicinal, o composto pode ser utilizado como relaxante muscular ou anestésico. Esse é somente um dos poucos compostos conhecidos, que sinalizam apenas a “ponta do iceberg” de tudo o que ainda precisa ser descoberto e que pode mudar a história da saúde no Brasil e no mundo. Mas afinal, quais são as dificuldades para estudar, pesquisar, investigar e, finalmente se conhecer o restante da biodiversidade amazônica? Na verdade, existem várias.

Uma delas diz respeito à burocracia para que pesquisadores possam fazer seu trabalho. Para que seja feita a coleta das plantas que se desejam investigar, é preciso de uma licença junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para que as amostras coletadas sejam transportadas ao laboratório, outra autorização é requisitada junto ao mesmo órgão. Agora, para que o pesquisador possa estudar as plantas que coletou, precisa de uma terceira anuência, emitida pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen). Essa burocracia toda está vinculada a uma iniciativa governamental para controlar a biopirataria de modo que, estrangeiros e brasileiros, precisem passar pelo mesmo processo para dar início as suas respectivas pesquisas. Na região isso ainda é agravado pela baixa quantitativa de pesquisadores existentes – estima-se que o campus da Universidade do Estado de São Paulo em Ribeirão Preto possua mais pesquisadores que o estado do Amazonas inteiro. Na prática, muitos cientistas acabam sendo desestimulados pela demora do sistema e também pela falta de incentivos financeiros decorrida da mesma morosidade.

Mesmo assim existem pesquisadores brasileiros renomados, com pesquisas impactantes e com descobertas significantes a respeito de nossa fauna e flora amazônica. Para eles a problemática não se restringe à pesquisa em si, mas na verdade à ausência de produtos gerados a partir de tais estudos. No Brasil parece haver um abismo entre o meio acadêmico e as unidades produtoras, laço que é mais estreito, e até estimulado, em outros países. Do burity, por exemplo, outra planta característica do ecossistema, obtêm-se carotenos que, junto a outro composto, podem ser utilizado para prevenir ou curar o câncer de próstata. Entretanto, pouco se sabe de que maneira tal descoberta está beneficiando a sociedade como um todo, sendo que a lacuna entre pesquisa e consumo é preenchida pelo produtor, ausente em muitos casos.

De maneira geral é preciso fomentar a exploração da Floresta Amazônica com o objetivo de descobrir ainda mais substâncias, trazendo-as para a realidade da sociedade de maneira a beneficiá-la. Porém o que se busca não é uma exploração desenfreada, mas que ela seja acompanhada por ferramentas e recursos sustentáveis, respeitando a integridade da flora e fauna, bem como as culturas indígenas locais. Apesar dos embaraços já destacados, uma minoria de empresas sustentáveis conseguiu se inserir na região e, atualmente, exportam insumos e extratos para mais de 30 países, incluindo famigeradas indústrias do ramo farmacêutico e cosmético.

Todo esse panorama nos faz questionar a atual relevância que é dada a tal bioma, bem como todas as dificuldades existentes para a pesquisa e para que ela de fato agregue algum beneficio à sociedade. Certamente existem substâncias desconhecidas que poderiam alavancar tratamentos de doenças epidêmicas, como o câncer. Essa falta de conhecimento acaba por provocar perdas humanas e econômicas, afinal, não é possível agregar valor ao desconhecido.

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