Movimento Estudantil de Medicina

Apesar de muitas tentativas, desde o inicio do século XX, de se organizar um Movimento Estudantil (ME) nacionalmente, apenas em 1937 com a fundação da União Nacional dos Estudantes(UNE) nasceu uma entidade estudantil que possuía um eco nacional e não unicamente um caráter local.

Desde o fim da década de 1950 até o início da década de 1960, o Movimento Estudantil abrange seu olhar em relação ao papel da Universidade,que não deve estar alinhado apenas ao desenvolvimento econômico do país, mas também à questão político-social.

Com Golpe de Estado em 1964 a instituição universitária e as organizações políticas ficam sob o controle e intervenção específica do Estado, com o intuito de desestruturar qualquer tipo de organização que seja oposta aos interesses do regime imposto. Neste contexto é criada a Lei Suplicy que restringe manifestações, apoio às greves e propaganda político-partidárias, além disso, estabelece um novo modelo de representação. Substitui a UNE pelo Diretório Nacional dos Estudantes, e as Uniões Estaduais dos Estudantes pelos Diretórios Estaduais dos Estudantes, com isso começa a ocorrer uma forte descaracterização do papel da representação estudantil desempenhado desde a década de 1930 quando foi criado.

Diante desse panorama de grande repressão o ME opta pelo enfrentamento ao Governo, ocupando um lugar entre os movimentos sociais, e assim estreita-se a relação entre o ME e organizações de esquerda, principalmente entre 1967 e 1968. Além de recusar a ditadura militar, o ME desejava transformar a Universidade.

No primeiro período da década de 1970 há uma divergência no entendimento do papel do ME dentro da Universidade, em consequência a isso ocorre uma mudança de nomenclatura das organizações estudantis. Os Diretórios Acadêmicos (DAs) visam debates mais centrados nas questões de formação e de inserção do profissional, e a participação nos fóruns da Universidade, os quais ainda não permitem a atuação de representação dos estudantes. Por outro lado, os Centros Acadêmicos (CAs) são compostos por estudantes que se aprofundam em discussões mais amplas sobre mudanças na ordem social. O segundo período dessa década,1975 a 1979, é marcado pelo surgimento de “entidades livres”, como DCE Livre da USP, pelo fortalecimento das organizações de esquerda, e pela consolidação dos Encontros Nacionais dos Estudantes(ENEs), que ocorreu pela primeira vez em 1975.Essa característica do segundo período ocorre pelo aumento da repressão às atividades realizadas pelos CA/DAs, seguida pela busca dos estudantes a uma postura mais radical e autônoma em relação à administração da Universidade.

Dando enfoque pra o ME de Medicina, em 1969 é realizado o primeiro Encontro Científico dos Estudantes de Medicina do Brasil (ECEM-BRASIL) em Salvador. Desde a sua primeira realização o ECEM vivenciou a disputa entre ser um encontro científico, centrando suas atividades principalmente em apresentação de trabalhos e artigos ou ser um encontro científico que a partir do mote da produção do conhecimento e do papel da Universidade, problematizasse a quem serve tais conhecimentos e a quem a formação dos médicos estava voltada. Nesse sentido, o segundo modelo de encontro, mais politizado, predominou principalmente do final da década de 70 em diante. Agregando estudantes de todas as regiões do Brasil, da maioria dos cursos de Medicina do país, públicos ou privados, com uma programação plural de característica política, científica e cultural, o ECEM se consolidou como o maior encontro anual dos estudantes de Medicina. Ao fim da década de 1970, com a conquista dos ECEMs como espaço mais politizado de organização dos estudantes, houve articulação para se criar uma federação nacional, porém não chegou a ser concretizado.

Pode-se dizer que a criação da DENEM, Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina fundada em 1986, esteve relacionada com três cenários, o primeiro é da conjuntura interna do MEM, que vivenciava um processo de transitar da luta contra a Ditadura Militar para a luta enquanto estudante universitário, principalmente problematizando a educação médica hegemônica no país e a relação da formação dos médicos com as necessidades de saúde da população brasileira.Outro cenário é a convocação da 8ª Conferência Nacional de Saúde que mobilizou diversos setores militantes da área em torno da construção das bases do que viria a ser o Sistema Único de Saúde criado na Constituição de 1988. No terceiro cenário temos a relação com a UNE, que vivia um processo de discussão sobre sua própria estrutura.

A história da criação de uma entidade representativa dos estudantes de Medicina não começa na década de 1980. Desde a década de 1940, o debate em torno de criar uma entidade que organizasse os estudantes de Medicina em prol de debater e intervir sobre a realidade que os cerca, já era presente nos espaços que agregavam esses estudantes. No caso, a partir da Semana Brasileira de Debates Científicos, foi criada a União Nacional dos Estudantes de Medicina (UNEM) na década de 1950, a primeira entidade representativa dos estudantes de Medicina do Brasil. A UNEM realizou atividades até a década de 1960, sendo extinta com a Ditadura Militar. Com o fim da ditadura, o MEM usufrui desse acúmulo político da década anterior para se adequar à nova conjuntura que se desenhou na década de 1980 e nas seguintes. De forma que a criação da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina nunca se colocou de forma sectária aos espaços de organização já existentes, tendo inclusive se vinculado formalmente à UNE nos seus primeiros anos. É como se a organização setorial dos estudantes de Medicina em uma entidade desempenhasse um papel complementar, mas que também não se limitava somente às pautas exclusivamente “corporativas”, específicas da Medicina. A pauta da saúde sempre funcionou como um instrumento problematizador da estrutura da sociedade, extrapolando então à esfera da saúde exclusivamente, ao mesmo tempo em que se fazia uma abordagem diferenciada da encontrada nos espaços do ME geral.

O primeiro Congresso Brasileiro dos Estudantes de Medicina (COBREM) foi realizado em 1989, em Brasília. Passou a acontecer periodicamente no início de cada ano, sendo caracterizado por uma programação mais densa, responsável pela elaboração do planejamento anual da DENEM através de uma adaptação da metodologia de Planejamento Estratégico e Situacional (PES). Tornou-se o segundo maior fórum deliberativo da entidade, inferior ao ECEM.

 

Esse recorte histórico do Movimento Estudantil de Medicina faz parte do trabalho de conclusão de curso da militante Bruna Ballarotti, coordenadora geral da DENEM no ano de 2008.

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