Mente descontínua – A incapacidade de ver o todo

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O que o ser humano entende por realidade é a interpretação do que lhe vem aos sentidos. Como estes não o permitem assimilar processos muito longos ou muito curtos sem o auxílio de amostras intermediárias, surge o que o biólogo Richard Dawkins, em um de seus artigos, chama de “mente descontínua”. Por exemplo: se você comparar a primeira foto da vida de uma pessoa com a última, é provável que seja difícil afirmar que elas pertencem à mesma pessoa. Porém, se preenchido o intervalo entre as fotos com fotos intermediárias, tiradas ao longo da vida, a associação tornar-se-á mais crível.

Nossa espécie evoluiu com a percepção de um ambiente de tamanho médio, com objetos se movimentando a uma velocidade média, ao longo de ciclos de vida de duração média. Hoje, confrontados com ideias de grandeza descabida, nosso cérebro precisa lançar mão de metáforas e comparações para entender conceitos como a velocidade da luz, o tamanho de um átomo, a escala de tempo geográfica. Da mesma forma, somos incapazes de entender ideias de continuidade. Simplificamos os processos determinando como parâmetro alguns poucos intermediários pertencentes a ele, criando um padrão que, na verdade, inexiste na natureza. Por isso determinamos a idade exata em que alguém passa a ser responsável pelos seus atos, classificamos os estudantes de acordo com sua capacidade ou não de atingir ou superar uma nota de valor exato, discriminamos indivíduos em vegetarianos ou onívoros segundo suas dietas.

É óbvio que não foi num estalo, à meia noite do dia do seu décimo oitavo aniversário, que você se tornou dotado de maturidade o suficiente para ser chamado adulto. Tampouco podemos afirmar a superioridade intelectual de um aluno que, em uma avaliação, tirou 6,5 em detrimento àquele que tirou 6,4. Essas convenções existem porque são necessárias para o funcionamento da sociedade tal qual a conhecemos.

Porém, essa nuance da mente pode apresentar caráter um tanto quanto danoso. É a sua descontinuidade que nos impede de entender a diversidade da natureza, a complexidade da realidade. Ela nos impede de entender o fenômeno da sexualidade humana, quando os pontos fogem às curvas do masculino e feminino; nos impede de entender o processo evolutivo, fazendo ser mais fácil aceitar uma explicação imediata e mais palpável da chegada da espécie ao estágio atual; nos faz crer que uma única pessoa é culpada por todos os problemas do cenário político brasileiro; nos faz rotular as pessoas em gordas, bonitas, burras, frias, e por aí segue.

Em suma, o estabelecimento de parâmetros estáticos a partir de um continuum é algumas vezes algo necessário, outras vezes algo prejudicial. Porém em ambos os casos, deve-se sempre ter em mente que os pontos específicos selecionados são uma ínfima parte de um todo muito mais extenso e muito mais plural. Precisamos ter uma visão crítica e aberta frente às convenções existentes na sociedade. Assim, talvez, não caiamos no equívoco de restringir as coisas a espaços onde elas simplesmente não cabem; assim, talvez, seja possível ter um vislumbre da real complexidade da vida, da natureza, das relações humanas e a riqueza que as perfaz.

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