A Extensão nas Universidades Brasileiras

A constituição de 1988 determina que, para garantir uma formação profissional completa, as universidades brasileiras devem “obedecer o princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.  Nessa época (e até hoje, em menor grau), as universidades tinham um determinado público a atender e seguiam uma linha de formação muito fechada , que não admitia debates nem participações coletivas, especialmente quando o assunto extrapolava os muros da universidade. Assim, essa lei foi criada com a intenção de remodelar a estrutura organizacional das instituições de ensino superior, baseado na ideia de que o conhecimento deve ser produzido na universidade a partir das demandas da população e que esse conhecimento deve ser também transmitido a população, o que torna a Extensão Universitária um pilar essencial do tripé universitário.

Uma das definições de Extensão Universitária é: “processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade”. Assim, deve-se ressaltar que a Extensão é uma via de mão-dupla que garante a aproximação e a integração entre a Universidade e a comunidade, na qual a sociedade apresenta-se como uma oportunidade para a elaboração da praxis de um conhecimento acadêmico, possibilitando que, na Universidade, docentes e discentes adquiram um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será somado àquele conhecimento.

Apesar de tudo isso, os projetos de extensão costumam ter problemas de adesão nas universidades. Uma pesquisa realizada com alunos de medicina de diversas instituições mostrou que mais de 90% dos entrevistados concordam que a participação em projetos de pesquisa e extensão é importante para a formação de pesquisadores mais produtivos e para o fornecimento de um legado para a comunidade e para o próprio curso de graduação. Porém, a maioria deles não participa desses projetos, apontando como principal obstáculo a falta de tempo para se dedicar a atividades extracurriculares. A partir desses dados, nos cabe um questionamento: qual é o papel de uma instituição de ensino superior em que o ensino e a pesquisa são extremamente valorizados enquanto a extensão é deixada de lado? Para quem esse conhecimento está sendo produzido? Se os alunos não forem estimulados a atuar junto à sociedade de uma forma concreta e constante, com o compromisso de retornar-lhes o conhecimento obtido nas pesquisas, teremos uma formação profissional deficiente, na qual se estuda e se pesquisa sem saber para que e sem atender a ninguém.

Percebe-se, assim, a necessidade de conciliar, de alguma forma, a carga horária exacerbada das aulas com o tempo a ser dedicado às atividades extracurriculares. Para isso, deve haver uma conscientização tanto dos discentes como dos docentes, para que se disponibilize tempo para os alunos e para que esse tempo seja bem aproveitado por eles. Dessa forma, será possível formar médicos que tenham, além do conhecimento teórico e hospitalar, a empatia e a consciência social proporcionadas pela Extensão Universitária.

 

“Numa sociedade cuja quantidade e qualidade de vida assentam em configurações cada vez mais complexas de saberes, a legitimidade da universidade só será cumprida quando as atividades, hoje ditas de extensão, se aprofundarem tanto que desapareçam enquanto tais e passem a ser parte integrante das atividades de investigação e de ensino.”

Boaventura de Souza Santos

 

 

 

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