Duas faces da mesma moeda

“A estudante Ana Flávia Peçanha de Azeredo, negra, 19 anos, filha do governador do Espírito Santo, segurou a porta do elevador social de um edifício em Vitória enquanto se despedia de uma amiga. Em outro andar, alguém começou a esmurrar a porta do elevador. Ana Flávia decidiu então soltar a porta e, depois de conversar mais alguns instantes, chamou o outro elevador, o de serviço. Ao entrar nele, encontrou a empresária Teresina Stange, loira, olhos verdes, 40 anos, e o filho dela, Rodrigo, de 18 anos. […] Segundo Ana Flávia contaria mais tarde, Teresina foi logo perguntando quem estava prendendo o elevador. “Ninguém”, respondeu a estudante. “Só demorei um pouquinho.” A empresária não gostou da resposta e começou a gritar. “Você tem de aprender que quem manda no prédio são os moradores, preto e pobre aqui não tem vez”, avisou. “A senhora me respeite” retrucou a filha do governador. Teresina gritou novamente: “Cale a boca. Você não passa de uma empregadinha”. Ao chegar ao saguão, o rapaz também entrou na briga. “Se você falar mais alguma coisa, meto a mão na sua cara”, berrou. “Eu perguntei se eles me conheciam e insisti que me respeitassem”, conta Ana Flávia. Rodrigo ameaçou outra vez: “Cale a boca, cale a boca. Se você continuar falando meto a mão no meio de suas pernas”. Teresina segurou o braço da moça e Rodrigo deu-lhe um soco no lado esquerdo do rosto. […] A polícia abriu um inquérito a pedido do governador. Se forem condenados [Teresina e Rodrigo], os dois podem pegar de um a cinco anos de cadeia” (Veja, 7 de julho de 1993).

Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade” (Revista Fórum, 5 de maio de 2014).

 

Mais de vinte anos se passaram entre uma notícia e outra e o que podemos constatar, não sem grande pesar, é que vivemos em uma sociedade racista, sectária, conservadora e violenta. Racista, ainda que velada, sectária e conservadora em suas práticas cotidianas (já notou como você se encolhe, ainda que no íntimo, ao cruzar com um negro sem camisa e tatuado?) e violenta, seja usando os olhos ou a mão – a mão, aquela mesma que antes empunhava o chicote, e, cá entre nós, não duvido nada que hoje não voltaria a empunhar não fosse os olhares acusatórios (e hipócritas, deve-se dizer) dos que estão ao redor.

Uma retrospectiva na história do Brasil nos faz entender qual o papel social delegado a esse contingente populacional. Importados como produtos, em troca de tabaco ou aguardente (quanto vale ou é por quilo?), vieram cá ter força de trabalho e corpos explorados sem qualquer remorso. A “salvação” foi áurea, chegou em tinteiro e pena, à duras penas para aqueles que só conheciam o escuro da senzala, ou os estupros cotidianos. E hoje?

Hoje os negros conseguiram altos postos (Joaquim Barbosa é um renomado jurista, correto?), podem competir em pé de igualdade com o resto da população branca por uma vaga no mercado de trabalho, talvez sejam até mais beneficiados, porque, veja bem, eles têm cotas raciais para entrar em universidades! Cotas raciais! Que absurdo, serem alvo de políticas públicas enquanto nossos filhos passam anos em salas de aula, frequentando cursos pré-vestibulares, preparando-se para de fato merecer estar em uma universidade!

Absurdo mesmo é saber que esse tipo de discurso se repete e ganha adeptos, eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes o ouvi. É esse tipo de discurso fundamentado na falsa crença de que vivemos sob a égide de um sistema que garante oportunidades iguais a todos, não importa o tom de pele, nem a classe social (classe? Tá parecendo muito comunista pra mim, acho melhor falarmos em estrato social), que fomenta atitudes como a da empresária Teresina Stange, ou dos alunos da PUCCAMP.

Não podemos, entretanto, colocar ambos os casos de racismo no mesmo patamar: Ana Flávia e a aluna do curso de arquitetura, Stephanie Ribeiro, não sofreram as mesmas dores. A primeira é filha do governador, como a Revista Veja fez questão de deixar claro, pertence, portanto, ao topo da pirâmide social, à burguesia, uma classe antagônica àquela de Stephanie. Antagônica e contraditória, porque fazem parte de uma mesma relação, são criadas por essa relação e transformadas nela e por ela. Em outras palavras, não há burguesia sem proletariado, e vice versa, ao mesmo tempo ambas estão imersas numa relação de negação mútua. Desse modo, Stephanie é vítima tanto de sua cor de pele quanto da espoliação econômica cotidiana sofrida por ser proletária. É vítima de Ana Flávia.

Não que nossa Cinderela Negra seja uma pessoa ruim, apenas me refiro ao papel de opressor desempenhado pela classe social que ocupa, sem julgamentos morais. E já que tocamos nesse ponto, não posso deixar de destacar uma das expressões usadas por Stange para ofender Ana:Você não passa de uma empregadinha”. Essa frase poderia muito bem ter sido retirada de alguma novela, talvez nas mesmas circunstâncias – uma loira rica ofendendo sua empregada negra. Poderíamos, então, divagar sobre o reforço dos papeis sociais ocupados de acordo com a cor da pele, o impacto da teledramaturgia brasileira no subconsciente da sociedade, ou ainda a tentativa vicentina de corrigir costumes ao rir-se deles.

De qualquer forma, Ana Flávia e Stephanie Ribeiro são apenas expoentes, duas faces da mesma moeda, produzidas por uma sociedade doente. Uma é senhora, a outra, assenhorada. Não são iguais na dor, mas são na cor. E isso não é um fardo leve.

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Um comentário em “Duas faces da mesma moeda

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