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EDITORIAL
VIVER SIGNIFICA TOMAR PARTIDO!

Até passar no vestibular e entrar na faculdade, jamais havia ouvido falar em centro acadêmico ou movimento estudantil – no máximo havia decorado a importância da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o período da ditadura militar brasileira. Ainda perdido entre as proteínas de Bioquímica e desesperado com Histologia, comecei a frequentar as reuniões ordinárias do Centro Acadêmico Euryclides Zerbini (CAEZ) logo no início do primeiro ano, especialmente porque curtia as discussões nos espaços de acúmulo. O primeiro espaço do movimento estudantil de Medicina que participei foi o Encontro Regional dos Estudantes de Medicina (EREM) de 2014, em que uma das oficinas abordou as organizações de representação estudantil. Hoje, depois de três anos participando do CAEZ e dois da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM), ainda me pergunto: afinal, qual é a função de um centro ou diretório acadêmico?

A resposta para essa pergunta não é simples: o movimento estudantil é fluido, devendo se adequar constantemente às demandas e prioridades dos estudantes. Nesse sentido, uma das suas funções é a de mobilizar, reunir e potencializar as lutas em torno de um objetivo em comum – ainda que utópico. Em contrapartida, com certeza não é papel do centro acadêmico atuar como secretaria dos alunos e da faculdade, resolvendo demandas e problemas burocráticos que não são da sua alçada. Também não é um espaço em que deve ser tolerada e reproduzida qualquer tipo de discriminação, hierarquia e hostilidade: deve ser um espaço de discussão legítima, e não de afago de egos; de construção coletiva, e não de desconstrução individualista; de posicionamento político, e não de “neutralidade”.

Ademais, é responsabilidade do centro acadêmico manter contato permanente e efetivo com os estudantes representados, ouvindo suas demandas e dialogando em torno de pautas relevantes. Nesse sentido, a coordenação de Comunicações do CAEZ enxerga a reestruturação do periódico acadêmico Diagnóstico como extremamente necessária na atual conjuntura da Famerp e do movimento estudantil. Criado em 1988, o Diagnóstico exerce o papel de disseminar parte das discussões que ocorrem na Casinha, apresentando outros pontos de vista e suscitando o debate a longo prazo.

As temáticas presentes na primeira edição de 2016 não são ao acaso. Representatividade, crise na permanência estudantil, feminismo, acesso à universidade, racismo, cultura do medo, luta política: é preciso discutir temas que ainda são um tabu dentro da Famerp e do CAEZ. O silêncio e a indiferença são posições políticas claras que visam à manutenção da ordem vigente, em todas as esferas sociais – e não se pode mais aceitar que vítimas sejam caladas pela apatia e pelo medo.

Viver significa tomar partido. Todos os dias nos deparamos com situações de silenciamento e discriminação: dentro da sala de aula, dentro do hospital, dentro de casa. Os setores conservadores da sociedade estão presentes na mídia, no Congresso Nacional e na faculdade, propagando discursos de ódio e intolerância que são reproduzidos pela população sem nenhum senso crítico. Bolsonaro, Donald Trump, seu preceptor machista, Datena: eles estão fazendo o trabalho de base diariamente, construindo o ideal de sociedade que eles querem viver. E você?

Daniel Felix Valsechi (Geleia)
Coordenador de Comunicações do CAEZ e estudante do 3º de Medicina da Famerp

SOBRE O CAEZ

O Centro Acadêmico Euryclides Zerbini (CAEZ) é a organização que representa os estudantes de Medicina da Famerp, lutando desde 1968 por melhorias dentro e fora da faculdade e abordando assuntos como extensão, educação, pesquisa, permanência estudantil, cultura, política, intercâmbios, saúde, entre outros.

GESTÃO AVANTE!

COORDENAÇÃO GERAL: Gustavo Spadon Merchan (Zé Colmeia)

COORDENAÇÃO ADMINISTRATIVA E DE PATRIMÔNIO: Luísa Beato Carvalho

COORDENAÇÃO CIENTÍFICA: Ana Paula Santana Lopes e Bruna Eltz

COORDENAÇÃO DE ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL: Augusto Haniu Nakahara, Bruna rancischini, Carolina Ayumi Oshiro (Flango), Mirella Cezare Gomes e Tatiane Santos Silva

COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÕES: Andrea Mari Hamada Ogushiko, Augusto Haniu Nakahara, Daniel Felix Valsechi (Geleia) e Larissa Louzada Yamaki (Garça)

COORDENAÇÃO DE EDUCAÇÃO E SAÚDE: Caíque Costa Dias (Austin) e João Marcos de Menezes Zanatta (Shiaolin)

COORDENAÇÃO DE EXTENSÃO E POLÍTICAS DE SAÚDE: Rayane Estefani Ribas da Silva Teixeira

COORDENAÇÃO DE FINANÇAS: Larissa Braune Rocha

COORDENAÇÃO DE POLÍTICAS EXTERNAS: Lucas Uback (Lucélia) e Paula Maximiano Leite dos Santos

COORDENAÇÃO LOCAL DE ESTÁGIOS E VIVÊNCIAS (CLEV): Erika Ermida de Freitas

COORDENAÇÃO SOCIOCULTURAL: Hélio Correa Ferraz Júnior (Daiane) e Lucas Guilherme Gomide de Paula (Casbañas)


EXPEDIENTE
O periódico Diagnóstico é uma publicação de responsabilidade do Centro Acadêmico Euryclides Zerbini (CAEZ)
CNPJ: 56.356.231/0001-97 - Inscrição Municipal: 76.660/0
Avenida Brigadeiro Faria Lima, 5464 - Caixa postal: 659
São José do Rio Preto, SP – CEP: 15090-000

Edição e diagramação: Coordenação de Comunicações do CAEZ
Capa: Fernanda Luiza Faria, estudante do 3º ano de Medicina da Famerp
Palavras cruzadas: Coordenação Sociocultural do CAEZ
Tiragem: 350 exemplares
Fale conosco: comunicacoes@caez.org.br
Circulação: Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp)
Distribuição sem fins lucrativos

UM PASSEIO PELO TITICACA

Dia desses passeando pelo lago Titicaca, que fica entre Peru e Bolívia, um argentino e um chileno conversavam sobre movimento estudantil em seus respectivos países, de como a luta se esvaziou desde o período da ditadura, e me indagaram sobre como estava o movimento estudantil aqui no Brasil. Com meu pouco conhecimento respondi que não vivi a época da ditadura militar brasileira para poder comparar, mas que considerava o movimento estudantil brasileiro atual com grande força, principalmente o da Medicina, que tive participação ativa, denominado DENEM. Mas o que significa DENEM? Por onde anda? O que faz?

No XVII Encontro Científico dos Estudantes de Medicina (ECEM), em 1986, foi fundada a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM). Nesse momento o país vivia seu processo de redemocratização, pré-constituinte e pós militar, e, especificamente na área da saúde, um momento importante para a Reforma Sanitária organizada em torno da VIII Conferência Nacional de Saúde e criação do SUS. A criação da DENEM veio da necessidade de os estudantes de Medicina, que já se organizavam politicamente, mesmo durante a ditadura militar dentro dos ECEMs e Centros e Diretórios Acadêmicos, terem sua participação política ampliada. Com 30 anos de existência, a DENEM vem desempenhando o papel de entidade representativa dos estudantes de medicina a partir de várias lutas e mobilizações.

Durante a década de 90, a pauta da educação médica foi sem sombra de dúvida a mais importante no seio da Executiva. Dentre outras pautas importantes estava a defesa do sistema único de saúde público, equânime e de qualidade.

Nos meus três anos de participação na Executiva, percebi que a DENEM teve um papel importantíssimo na minha formação médica, pois entrei em contato com debates que nunca seriam discutidos curricularmente, como saúde do negro, violência contra mulher, saúde da população LGBT, educação médica, entre muitos outros temas que são necessários à nossa função social na medicina, mas que não são abordados durante a graduação. Por isso sei que além de todo o papel político que a Executiva desempenha na representação dos estudantes de medicina, ela também tem um papel fundamental de tomada de consciência dos estudantes que se permitem adentrar nesse universo de luta estudantil.

Durante esses anos de militância, existiram momentos difíceis, com choro, angústias, brigas... Mas, acima de tudo, conquistei amizades eternas, vivenciei aprendizados únicos, participei de uma luta inesquecível, e quando me perguntarem, ao balaço do Titicaca, como está o movimento estudantil no Brasil, sei que terei uma história pra contar, pois vivenciei, mesmo que por pouco tempo, toda a intensidade do movimento estudantil de medicina.

Natália Sahyoun Camargo
Coordenadora regional Sul-2 da DENEM em 2014 e 2015 e estudante do 4º ano de Medicina da Famerp


REPRESENTATIVIDADE ESTUDANTIL NAS ESCOLAS MÉDICAS: UM DESAFIO

De maneira genérica, poderíamos definir representatividade como uma prática, que atualmente não se desvincula da existência de duas categorias: representante e representado. Esse é o modelo que marca a afirmação política da burguesia enquanto classe hegemônica na Modernidade e serve de base para constituição das atuais democracias representativas. Ainda, é ele que, em algum grau, influencia as formas como organizamos os espaços de representação estudantil: legitimamos por meio do voto o grupo de estudantes que irá dirigir nossos centros ou diretórios acadêmicos e questionamos suas ações quando elas não correspondem às nossas expectativas. Entretanto, antes de nos aprofundarmos na discussão sobre a legitimidade das ações, é necessário debater alguns pontos.

De início, nossa discussão deve ser situada na realidade atual das escolas médicas, cuja maioria dos estudantes integra às classes médias com poder aquisitivo elevado: o questionário do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) em 2013 constatou que a faixa de renda familiar mensal mais comum entre os estudantes de medicina foi de 10 a 30 salários mínimos. Além da fundamental determinação da classe, o perfil do estudante sofre alguma influência do vestibular: enquanto processo, ele amplia o tempo dedicado aos estudos, prolongando o contato com aparelhos de inculcação ideológica (cursinhos), além de agudizar e naturalizar a competitividade intrínseca ao capitalismo, fazendo da vaga uma aparente conquista do esforço individual. Já na faculdade, esse sujeito passa a compor o corpo discente, que mais parece uma grande família: as relações hierárquicas, o incentivo ao amor à instituição e o espírito de grupo são parte de um amplo projeto que visa produzir consenso e alienação. Numa família não há espaço para pares, tampouco para grandes singularidades: há uma série de regras impostas que confluem para normalizar seus membros, imprimir-lhes comportamentos, interesses e opiniões únicos.

A ação política, em seu caráter individual, no qual se assentava a democracia grega, não se realiza, porque é substituída pelo comportamento. Dessa forma, os espaços democráticos são facilmente pervertidos e suas deliberações tendem a se colocar na defesa de uma maioria, cujo principal interesse é a manutenção da ordem: toda hierarquia, construída à base de técnicas disciplinares, aplicadas pelos corpos docente e discente, retira do indivíduo suas potências, reforça os valores hegemônicos e compromete a construção de um projeto de transformação da realidade. É justamente com isso em vista, que os centros e diretórios acadêmicos devem pensar sua representatividade.

Para romper com esse panorama, esses órgãos devem agir, sobretudo, na instrumentalização do estudante, no desenvolvimento de um nível de consciência crítica, no incentivo ao exercício político, na construção de uma unidade oposta ao corporativismo gerado no seio familiar, e na ruptura do vício burguês de enxergar a representatividade como um dado sobrenatural que vem do alto. O estudante deve se fazer representado e ter condições para operar de maneira crítica sobre o meio em que se insere sem depender única e exclusivamente dos seus representantes. Isso porque o corpo político à frente das instituições representativas é também composto de graduandos, cuja realidade material nem sempre permite que se coloquem na linha de frente dos processos histórico - não os dirigem, organizam seus atores. Nesse sentido, tratar as demandas de forma paternalista não é o caminho, mais saudável seria haver unidade entre estudantes e seus representantes, um trabalho em equipe, com ações divididas e pactuadas. Isso também contribui para que o estudante atue na transformação da realidade mesmo fora do ambiente universitário e saia do conformismo, além de retirar dos representantes seus status corriqueiros de “secretários”.

Lucas Uback
Coordenador de Políticas Externas do CAEZ e estudante do 3º ano de Medicina da Famerp

ANAMNESE
DIÂNGELI SOARES
Diretora da Secretaria Geral do Simesp

Obrigado por aceitar o convite para a entrevista, Diângeli! Atualmente você é Diretora da Secretaria Geral do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Qual é a função de um sindicato e quais são as atuais lutas pautadas pelo Simesp?

O Sindicato é responsável pela representação do médico enquanto trabalhador. É muito comum que após a formatura os jovens médicos confundam o papel das entidades médicas, não sabendo bem a quem procurar em cada situação. Nós temos os Conselhos, que são órgãos responsáveis pela ética e pela fiscalização do exercício da medicina. Os Conselhos não são entidades médicas, são na verdade órgãos do Estado, cujo foco de trabalho é proteger a população das más práticas profissionais. Nós temos as associações medicas, que são entidades privadas de cunho científico, que tem um papel na produção de conhecimentos na área médica e na titulação dos especialistas no Brasil. E nós temos os Sindicatos, que defendem o médico trabalhador nas questões pertinentes às condições de trabalho e remuneração. Então, quando os empregadores não oferecem condições mínimas de trabalho ou lesam direitos trabalhistas, o sindicato é a entidade que deve ser procurada. O Simesp, em particular, tem uma história muito marcada pela defesa do SUS e de sua efetivação de fato. Assim, temos atuado junto a outros sindicatos e espaços da sociedade civil, como os Conselhos de Saúde, na construção deste SUS que defendemos desde a VIII Conferência Nacional de Saúde.


Há quem diga que os sindicatos são o "refúgio" de quem participou do movimento estudantil durante a graduação. Em 2008 você integrou a Sede Nacional da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM) como Coordenadora de Comunicação. O que muda da militância dentro do ambiente universitário para a militância no âmbito profissional?

Muda o contexto, mas muitas das bandeiras sem mantém. Em 2006 participei do XVIII Congresso Brasileiro dos Estudantes de Medicina (COBREM), em Niterói, cujo tema era "Os Médicos na construção de um projeto para o Brasil". Acredito que até hoje estamos buscando as respostas para as perguntas que levantamos nesse encontro, partindo da tese que nós, médicos, temos sim a capacidade e o dever de exercer um papel de mudança e transformação social. Hoje a saúde é uma das principais preocupações dos brasileiros e nós médicos somos interlocutores muito privilegiados processo de "dar" aquilo que as pessoas desejam muito. As tensões sociais estão presentes em todos os processos de adoecimento, inclusive no último episódio do vírus da Zika, em que a pobreza é um dos principais fatores de associação com o desfecho de microcefalia. A indústria farmacêutica é uma das mais poderosas do planeta, sendo capaz até de influenciar no padrão de normalidade das curvas de crescimento infantil. Cerca de metade da literatura médica seria falsa, segundo denúncia de importante editor do The Lancet, graças a tal influência. Acredito, portanto, que há grande potencial político na identidade do médico e que devemos aproveitá-la.


Apesar da crescente inserção das mulheres na Medicina, é fato que a profissão ainda é machista: médicas recebem salários menores do que médicos, além de sofrerem assédios dentro e fora do ambiente hospitalar. O Simesp tem lutado por pautas feministas? Como é a participação das mulheres dentro do sindicato?

O Simesp tem se dedicado muito a este debate. Nossa Diretoria, que assumiu na metade de 2014, é composta majoritariamente por médicos jovens e mulheres. Essa é a cara do médico hoje em dia e nada mais justo do que a diretoria refletir este perfil. A feminilização da força de trabalho é algo que vem em marcha há bastante tempo na medicina, mas apenas recentemente os números absolutos atingiram níveis chamativos, o que tem levado a muita teorização a respeito. Ainda não existem pesquisas consistentes a respeito desse assunto, mas as teses correntes, tanto na imprensa tradicional quanto na imprensa médica, refletem o machismo arraigado da sociedade brasileira. Muitos pressupostos frágeis e baseados em estereótipos, como por exemplo a existência de uma "tendência natural para o cuidado" por parte das mulheres, embasam teses de que a feminilização é positiva, mas que pode ser danosa, pois mulheres "vão menos para o front". Isto poderia levar a desassistência em determinadas áreas, como a medicina de urgência e algumas especialidades cirúrgicas. A força de trabalho da enfermagem é majoritariamente feminina e nunca faltou enfermeiras "no front", o que demonstra a precipitação destas conclusões. Fato é que, culturalmente, o feminino é associado a coisas negativas, como por exemplo quando se diz que alguém "parece uma menina" quando joga futebol mal. Isso se reflete nas teses dos que veem com preocupação a presença crescente de mulheres na medicina, como se nosso gênero implicasse em pior qualidade e menor prestígio para a profissão.


A sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi atacada na véspera das manifestações do dia 13 de março. Em 1964, a sede da UNE foi incendiada pouco tempo antes de ser deflagrado o golpe militar. Qual sua opinião sobre as manifestações "anticorrupção" que estão ocorrendo?

No Brasil, o patrimonialismo, ou seja, a apropriação privada daquilo que é público, é um problema centenário e a corrupção está arraigada nas entranhas do Estado nacional. É natural e positivo que as pessoas rechacem essas práticas, sem restrições de cunho partidário. Todos que cometem ilícitos devem ser punidos: corruptos e corruptores, em qualquer esfera. Ocorre, entretanto que a corrupção tende a ser um assunto fácil, não demandando grandes problematizações aos que atuam no seu combate. Em certo nível, manifestar-se contra a corrupção, pura e simplesmente, é praticamente dizer que se é a favor das coisas boas e contra as coisas más. Assim, outros assuntos passam ao largo do debate político cotidiano, como o sucateamento da saúde, o extermínio da população negra nas periferias, a crise das Santas Casas com a demissão de centenas de profissionais (inclusive médicos), o fechamento de escolas, a homofobia e tantos outros assuntos que fazem parte do nosso dia a dia. Nesse sentido, acredito que manifestar-se contra a corrupção é atitude política bem-vinda e que deve ser acolhida. Deve-se, entretanto, tomar o cuidado para que não se esvaziem outros debates.


A invasão das Organizações Sociais (OSs) nos hospitais universitários retrata bem a mercantilização da saúde no país: na Universidade Federal Fluminense (UFF) houve tentativa de aprovação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) por e-mail. Na sua opinião, como os estudantes podem atuar contra a expansão da privatização nas universidades e nos hospitais-escola?

Os estudantes são protagonistas dos processos de transformação social desde os tempos mais remotos da história do Brasil. Os estudantes defenderam a República, lutaram contra a escravidão, defenderam o petróleo, as eleições diretas, foram às ruas ano passado contra o fechamento das escolas estaduais. Os estudantes de medicina se mobilizam desde os tempos das Sociedades Acadêmicas do século XIX na Bahia, entidades organizadas em torno da primeira escola de medicina do Brasil. Organizaram encontros durante a ditadura, quando os aplausos tinham que ser substituídos por estalares de dedos, em virtude da repressão. Foram delegados na VIII Conferência Nacional de Saúde e protagonizaram os projetos de transformação curricular da década de 1990 e começo dos anos 2000. Ninguém duvida do potencial dos estudantes. O consenso privatizador é uma realidade do nosso tempo e as contradições desse modelo precisam ser expostas. Cabe aos estudantes de hoje não se isolar, fugir das pautas fáceis e fazer jus a essa história.


LUTA POLÍTICA APÓS A FACULDADE: ELA EXISTE?

Ao entrar na faculdade de medicina, o estudante logo é apresentado para várias instituições referentes à vida acadêmica, tais como Centro Acadêmico e Atlética. Muitos estudantes decidem por ingressar nessas, por interesses diversos. Durante o curso, há um incremento da noção desses alunos sobre sua inserção no local de ensino e criam-se ferramentas para a luta política. Porém, ao fim do curso, muitas vezes os estudantes – agora médicos – não sabem como militar pela causa médica e pela saúde pública.

Dentro do cenário da residência médica, existe uma associação que seria a equivalente à Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM) – para o espaço de lutas políticas. Trata-se da Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR). Ela é, em tese, responsável por lutar por melhorias dentro do cenário da residência médica em âmbito nacional, além de ouvir as demandas dos comitês locais.

Em cada serviço de residência, os grupos de residentes deveriam se organizar a fim de ter uma associação de médicos residentes local. Desse modo, a luta por interesses específicos é dada no dia a dia. Com organização institucional dentro dos serviços, é mais fácil ter direito à voz e até a voto em decisões importantes referentes ao centro em questão.

Além disso, uma organização efetiva de uma associação de médicos residentes previne muitas vezes da famosa represália feita por chefes de serviço, muito frequente e muito temida e hospitais. Quanto mais desorganizado o movimento, mais fácil de ocorrer represálias e de não atenderem as reivindicações em questão.

Além disso, existe a representação sindical. Nós, como classe organizada, temos sindicatos que defendem nossa profissão. O sindicato dos médicos tem como objetivos a defesa do médico perante a irregularidades no local de trabalho, bem como luta por melhorias na saúde como um todo. Desse modo, pode garantir o interesse do médico de forma justa. Em São Paulo, o Simesp tem atuado de forma ativa nas lutas contra as demissões em massa ocorridas na Santa Casa de São Paulo, bem como na luta pela contratação de médicos especialistas no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Todavia, em minha opinião o movimento político médico é muitas vezes parco. Os médicos têm muita dificuldade de mobilização. Não vemos com frequência movimentos organizados buscando melhorias na saúde. Em 2015, houve uma grande mobilização de ANMR em defesa do cenário de residência médica no país.

Infelizmente, o que ocorreu foi apenas uma união de indignados com todo o sistema, porém não houve o debate adequado em nível nacional sobre as reivindicações em questão. O movimento, após uma greve de 15 dias em âmbito nacional, perdeu força, devido ao período do ano e a crise política que o país enfrenta atualmente. Outro problema bastante relevante em relação às reivindicações da classe médica é que quase sempre elas são classistas.

Ou seja: reivindicações que apenas beneficiam a classe médica como um todo. É muito difícil ver a classe médica se mobilizar em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), da saúde pública e da melhoria das condições de saúde como um todo. Isso é tão gritante que o movimento da Reforma Sanitária, ocorrido no final da década de 80 no Brasil, foi liderado principalmente por movimentos sociais e por profissionais de saúde não médicos em sua maioria. Além disso, o movimento médico cada vez mais se isola das outras profissões em saúde, reivindicando causas próprias que enfraquecem a própria categoria perante a população.

Existe espaço para a luta após se formar. Existem muitas demandas do sistema de saúde que precisam ser amplamente debatidas e repensadas. Os médicos, como formadores de opinião, têm de ampliar a visão a respeito da saúde no país e atuar de forma a mudar de fato a sociedade. Nós temos esse poder. Não podemos deixar o interesse individual prevalecer sobre o maior interesse de todos: a saúde.

Pedro Campana (Pirce)
Médico infectologista no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e ex-aluno de Medicina da Famerp (turma XL)

QUANDO O MEDO ATINGE O OPRESSOR

O medo é um sentimento natural de toda a criatura que vive. No processo de crescimento, somos constantemente estimulados a senti-lo como forma de evitarmos caminhos que nos prejudiquem moral, física ou socialmente. Não é de se estranhar o caráter medonho das canções de ninar, que nos estimulam desde cedo a enfrentar criaturas fantasiosas que “pegam crianças com medo de careta”. Evitar medos é, portanto, uma ferramenta de autoproteção, uma espécie de escudo que nos defende se não cometermos erros. No entanto, autoproteção nem sempre é a sua maior característica: as sociedades apropriam-se do medo como forma de manter o controle social, através de imagens catastróficas que causam um receio generalizado. Se pararmos para refletir, podemos chegar na conclusão que esse uso talvez seja majoritariamente o responsável pelos medos que sentimos.

Peguemos o exemplo da ditadura militar no Brasil. No contexto em que ocorreu, o país passava por uma crise política, atribuída pelos setores mais conservadores como fruto da aproximação com o comunismo. As reformas de base de João Goulart tinham um caráter social muito marcante, principalmente no que tange a reforma agrária. Aliado a isso, temos a influência midiática norte americana no combate ao comunismo. Essas duas imagens confluíram e formaram o que os historiadores chamam de “terror vermelho”, ou seja, começou-se a propagandear ideais comunistas atrelados ao governo vigente no Brasil, objetivando desestabiliza-lo. A população aderiu a esse pensamento e, por fim, a ditadura se instaurou. Isso mostra como uma imagem, mesmo que falaciosa, tem o poder de controlar a opinião pública quando se edifica no medo.

Há inúmeras outras ocasiões que ilustram isso: a atribuição de punições pela Igreja católica medieval a quem fosse contra o pensamento “cristão”, a imagem demonizada da saúde socializada criada pelas empresas seguradoras norte americanas; o medo de tirar o PT do poder e com ele saírem as políticas de bolsas... Enfim, esses são apenas alguns exemplos capazes de provar que não é de hoje que o medo surgiu para promover o controle social. Um desses tipos de medo merece atenção especial: a cultura do medo nas universidades de Medicina.

Nesse ambiente prevalece uma estrutura hierárquica fantasiosa, pautada na segregação e exclusão dos que não se subordinam ao sistema. É um sentimento de superioridade, fortalecido anualmente e que confere aos “veteranos” controle sobre os recém-chegados.

Essa estrutura seria incapaz de se manter por si só apenas com seu discurso original. Por isso, utiliza o medo como instrumento de legitimidade. Desse modo, frases como “você não terá ajuda no internato se não participar”, “é preciso passar pelo trote para se integrar”, “não responda a um veterano ou será taxado de arrogante”, entre outras; surgem causando medo generalizado.

Para os veteranos, os calouros são um solo fértil para a imposição da hierarquia, justamente por não conhecerem o terreno em que pisam. É natural que os novatos acreditem nos que estão há mais tempo naquela instituição. Se no começo relutam em sofrer práticas trotistas, no final acabam cedendo e, futuramente, se tornando os opressores.

Felizmente, nem todos se entregam facilmente à hierarquia. Embora em número pequeno, os que se rebelaram contra o sistema conseguiram forças para denunciar os agressores e, por fim, levar à criação de uma CPI em combate ao trote. Desde então, tem-se dado força aos que sofreram calados durante anos, incentivando-os a denunciar aqueles que os oprimiram. Com isso, o pensamento hierárquico vai sendo aos poucos desmistificado e o medo passa a residir não mais no oprimido, mas sim no opressor que teme punições judiciais.

As recentes discussões sobre o trote são fundamentais para que se desconstrua parte do currículo oculto que rasteja nos corredores das universidades. Contudo, essa luta só irá adiante se os alunos contrários ao sistema continuarem militando contra o trote. Afinal, o tratamento de um câncer não cessa quando ele está inerte, mas sim quando ele é erradicado.

Caíque Costa Dias
Coordenador adjunto de Educação e Saúde do CAEZ e estudante do 2º ano de Medicina da Famerp


PAINEL
PROGRAMAS DE FINANCIAMENTO E POLÍTICAS AFIRMATIVAS NA UNIVERSIDADE

UNIVERSIDADE INCLUSIVA: UMA NOVA CHANCE AO SISTEMA EDUCACIONAL

É inquestionável que iniciativas do governo tenham contribuído para ampliar de forma significativa as matrículas no ensino superior, tanto em faculdades públicas quanto privadas. No entanto, não ocorreu uma inclusão igualitária de todos os setores da população nessas instituições. Isso mostra que as universidades também são um reflexo da sociedade na qual está inserida, demonstrando a responsabilidade que elas, juntamente com o governo, têm em reverter o quadro caótico de desigualdade educacional, muitas vezes resultante do processo histórico e cultural de formação do país. Tendo isso em vista, as autoridades públicas têm desenvolvido e implementado ações afirmativas, como as cotas raciais e sociais e o Programa Universidade para Todos (Prouni), e políticas de financiamento estudantil, como o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), que facilitam o acesso da população de baixa renda ao ensino superior.

A ideia fortemente disseminada de que o sistema de cotas consiste em uma mera questão de justiça social é contestável. Ao longo da história, não houve uma equiparação de oportunidades entre brancos e negros, por exemplo, havendo a necessidade atual das cotas raciais. A escravidão e o tráfico transatlântico de escravos negros foram violações graves e sistemáticas dos direitos humanos, as quais trouxeram prejuízos incalculáveis para essa parcela da população, contribuindo para a marginalização social em que grande parte dela se encontra nos dias atuais. Não se trata, porém, de consertar os erros do passado, mas sim de políticas compensatórias de incentivo às minorias. Essas geralmente não têm a oportunidade de estudar em escolas de boa qualidade e, por isso, muitas vezes não são preparadas em nível de igualdade com os alunos de classe média e alta para disputar uma vaga no ensino superior. Assim, a discrepância do ensino médio privado de qualidade, ao qual apenas alguns alunos têm acesso, em relação ao ensino médio público, em grande parte precário, acaba por tornar necessárias as reservas de vagas nas universidades públicas para os alunos de renda mais baixa. Para ampliar ainda mais a gama de possibilidades de acesso ao ensino superior, o governo encontrou uma forma de alunos de baixa renda conseguirem ocupar e manter a vaga conquistada nas instituições privadas. O Prouni concede bolsas de estudo parciais ou integrais nessas instituições e o FIES financia a graduação na educação superior de estudantes matriculados em universidades pagas. Essas ações são de enorme importância na medida em que aumentam a quantidade de vagas disponíveis para as classes mais carentes da sociedade, dando a eles a perspectiva de se graduarem mesmo não tendo condições financeiras de arcarem com os custos do ensino privado.

Nesse contexto, o sistema de cotas sob os seus dois aspectos, raciais e sociais, o Prouni e as políticas de financiamento estudantil, embora fortemente combatidos por grande parte dos estudantes e acadêmicos, são medidas adequadas e essenciais, não para a solução plena dos problemas educacionais pelos quais passa o Brasil, mas como uma sobrevida do sistema educacional. Esses programas são direcionados para assegurar a igualdade de oportunidades, dando à minoria discriminada e marginalizada maior espaço para lutar por seus direitos. Não se trata de uma mera quitação de dívidas com os negros e os pobres e nem mesmo de uma forma de livrar a responsabilidade das autoridades: trata-se, acima de tudo, de medidas emergenciais, necessárias para a reconstrução não somente do sistema educacional, mas também da mentalidade do público, para a formação de uma sociedade em que prevaleça a igualdade de direito, a começar pelo acesso equitativo ao ensino superior.

Rayane Ribas
Coordenadora de Extensão do CAEZ e estudante do 2º ano de Medicina da Famerp

ACESSO À EDUCAÇÃO: UMA ALTERNATIVA LIBERAL

Há muito que o debate sobre as cotas raciais e medidas afirmativas para o acesso ao ensino superior no Brasil têm sido desgastado. Existem inúmeros argumentos contra e outros incontáveis a favor, existem exemplos de onde deu certo e também lugares onde deu errado. A questão principal que se deveria discutir, no meu ponto de vista, é se isso resolve ou não o caos educacional em que nosso país se encontra.

Se um dos argumentos a favor dessas medidas é o de que pobres e negros não tiveram oportunidade de estudar em boas escolas durante o ensino fundamental e médio, não é apenas reservando vagas na universidade para essa parcela de pessoas que o problema educacional será resolvido, pois hoje mesmo após anos de cotas e outras medidas afirmativas o pobre e o negro continuam estudando em uma escola sucateada durante boa parte de suas vidas. Que igualdade de oportunidade existe nisso? Que direitos constitucionais estão sendo assegurados? Afinal, o fim principal de um sistema educacional deve ser apenas o acesso ao ensino superior?

O fato é tais medidas afirmativas deveriam ser encaradas como uma forma temporária de aliviar o problema enquanto uma reforma mais profunda e estrutural da educação básica e do ensino médio estivesse em curso, o que não acontece. É ilusão acreditar que o ensino público de hoje está melhor que o de dez anos atrás. O PROUNI, que, ao contrário do que muitos pensam, é uma medida liberal e não progressista, serve de exemplo para um programa que já existe em outros países e que poderia ser uma alternativa interessante na educação básica e no ensino médio no nosso país. Se ao invés dos governos “investirem” na construção de novas escolas, concursos públicos para contratar professores, licitações para compras de materiais e insumos, e demais atividades que demandam muito tempo, drenam e desperdiçam recursos dos cofres públicos, que nada mais são do que recursos dos pagadores de impostos, por que não entregar as famílias um “vale escola”, uma determinada quantia - em forma de crédito ou voucher - para que os pais pudessem escolher uma escola da rede privada para seus filhos? As famílias teriam a liberdade de escolher uma mais próxima de suas casas, ou outra com um sistema de ensino que seus filhos gostassem mais. Dessa forma, diminui-se a intervenção do Estado nas decisões pessoais das famílias e ao mesmo tempo proporciona um ensino de qualidade para crianças e adolescentes que estariam fadadas ao sucateamento do ensino público.

E o mais interessante é que isso, se aplicado da maneira correta, geraria uma maior competição entre as escolas da rede privada, que seriam incentivadas a melhorar cada vez mais seus serviços. E quem sai ganhando com isso é a população atendida por essa medida. Entretanto, esbarramos mais uma vez no viés ideológico da nossa classe política e acadêmica que diz valorizar as liberdades individuais, mas só aquelas que o Estado “permite”.

Concluindo, não se pode negar que as medidas afirmativas foram e têm sido eficazes para a parcela da população que elas privilegiam, mas deve-se questionar se isso realmente resolve as desigualdades educacionais do nosso país ou se são só mais um instrumento populista de um governo que se diz “Pátria Educadora”, mas que pouco fez para reformar a educação básica dos brasileiros.

João Paulo Carrara
Estudante do 3º ano de Medicina da Famerp


INCLUSÃO DO NEGRO NA UNIVERSIDADE

"Chegamos às universidades e não chegamos quietos
não precisamos falar nada para fazer barulho
nossa cor ecoa nos corredores acadêmicos gritando
AQUI TEM SANGUE NEGRO
"
Luana Pereira – Estudante de direito, feminista e negra

O Brasil tem em sua história uma vergonha de 354 anos de escravidão. Foram 3,5 séculos explorando a mão de obra e excluindo africanos e seus descentes. Mesmo com a abolição, a população negra continuou à margem da sociedade porque o Estado não criou mecanismos de inclusão. Sem esses mecanismos, sobrou à população negra os postos mais precários de trabalho e a perpetuação da sua condição de exclusão para seus descendentes. Juntamente a isso, o racismo institucionalizado na cultura brasileira fez com que o negro se tornasse inferior esteticamente, moralmente e intelectualmente em relação ao branco. O resultado foi anos de discriminação e uma dívida histórica.

É sabido que a educação é um dos meios de reverter esse quadro. Sendo um instrumento de ascensão social, ela pode possibilitar melhor rendimento e reconhecimento pessoal. Entretanto, no Brasil, esse meio sempre teve um forte caráter elitista e está relacionado à manutenção dos privilégios de classes mais abastadas. Assim, embora o acesso do negro à universidade não fosse legalmente proibido, ele se deu de forma tardia. Somente a partir de 1980, quando o deputado Abdias Nascimento formulou o projeto de lei referente às “ações compensatórias” pelos séculos de discriminação sofridos pelos afrodescendentes. Aliado a isso, as políticas afirmativas que representadas pelas cotas raciais passaram a dar maiores oportunidades ao negro sendo a Universidade de Brasília (UnB), em 2003, a primeira instituição federal a adotar essas políticas.

Contudo, mesmo com as cotas raciais e sendo a maioria da população brasileira, a população negra é pequena no meio acadêmico. Apesar do crescimento, a proporção de estudantes negros/pardos não atingiu os índices de estudantes brancos quando a políticas de cotas começou. Segundo dados do IBGE, em 2004 16,7% dos estudantes pretos/pardos estavam no ensino superior e em 2014 esse número foi para 45,5%; entre os estudantes brancos a porcentagem era de 47,2% em 2004 e em 2014 passou para 71,4%. Em cursos mais tradicionais, essa participação é ainda menor. Um exemplo é o curso de Medicina da Famerp: de 2005 até 2014, somente 22 negros estavam matriculados (COMVEST). Tais estatísticas mostram o longo caminho que ainda precisamos percorrer para uma real inserção dos negros na universidade.

Esse caminho também passa pela eliminação do racismo institucional. Pichações nos muros das faculdades que dizem “voltem para a senzala”, letras de músicas que reproduzem as expressões “preta imunda” e “crioulas fedorentas”, estudantes que pintam o rosto com tinta preta e utilizam o termo “inclusão social”. Tudo isso torna o ambiente universitário extremamente opressor, afastando e inibindo a ocupação dele pelo negro. Ou seja, a universidade sendo um microcosmo da sociedade reproduz a marginalização que a população negra sofre e tenta evitar que a dívida histórica seja finalmente paga.

Inserir uma população marginalizada não é uma tarefa fácil, mas é essencial para que a sociedade seja mais justa. A universidade precisa garantir o acesso ao negro. Mais do que isso: é necessário garantir a permanência e o respeito a ele. Os espaços de produção e difusão de conhecimento estão sendo ocupados, por isso não podem calar as vozes e vontade desse povo.

Paula Maximiano L. Santos
Coordenadora adjunta de Políticas Externas do CAEZ e estudante do 2º ano de Medicina da Famerp

FEMINISMO PRA QUÊ?

2015 foi o ano em que o movimento feminista retomou sua força e ganhou espaço na mídia. Através do Feminismo as mulheres buscaram conquistar diversas pautas que lutavam, em suma, para alcançar a autonomia, igualdade e liberdade feminina. Entretanto, apesar de termos observado esta crescente organização de manifestações progressistas, as últimas eleições revelaram resultados que apontaram para uma outra direção. De acordo com o levantamento do Departamento Intersindical de assessoria Parlamentar (Diap), os parlamentares conservadores se consolidaram como maioria na eleição da Câmara, se caracterizando como o Congresso mais conservador desde o período militar. A respeito da constituição da Câmara, as mulheres-cis ocupam apenas 51 (10%) das 518 cadeiras.

Diante desses dados, podemos afirmar que são os homens-cis que, hoje e sempre, legislam e regem sobrem os corpos das mulheres. Homens que desconhecem o medo iminente de um estupro e tampouco conhecerão a experiência de uma gravidez. A mulher vê sua autonomia, bem como seus limites e direitos, serem desprezados devido à essa sub-representatividade na política. Um exemplo desse descaso é a aprovação do PL 5069/2013 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ). Também conhecido como “PL do Estupro”, é de autoria do presidente da Câmara, Dep. Eduardo Cunha, peemedebista da bancada evangélica; e representa um enorme retrocesso na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos conquistados nos últimos anos pelas mulheres, pois visa dificultar o acesso legal ao aborto.

Nesse projeto, a mulher estuprada passa a ser obrigada a comprovar a violência sofrida, para ter direito ao aborto legal, através de registro na polícia e realização de exame de corpo delito.

O projeto de Lei também propõe que hospitais passem a ser desobrigados de informar às mulheres vítimas de estupro sobre seu direito ao aborto legal; e que não apenas a mulher a realizar o aborto, mas também a pessoa que induzir, instigar ou auxiliar o aborto, poderá ser punida com pena de prisão. Em outras palavras, se o PL entrar em vigor será crime fornecer qualquer informação sobre o aborto.

Pouco tempo após a aprovação, o PL gerou manifestações organizadas por movimentos feministas, da rede para as ruas. A organização das passeatas era uma resposta não só ao conservadorismo do projeto de Lei em Questão, mas também do atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha.




E por que o PL é preocupante?

A precisão do exame de corpo delito diminui conforme passa o tempo após o crime. Dessa forma, força a mulher estuprada a registrar o crime e a realizar o exame logo após ter sido violentada sob o risco de perder seu direito ao aborto legal, o que por si só já é uma violência brutal. Outro fator importante é a falta de profissionais preparados para lidar com mulheres em situação de vulnerabilidade. Não raro, as denúncias são debochadas pelos agentes penitenciários. Seu caráter muitas vezes também é posto à prova com perguntas no mínimo inconvenientes: “Por que saiu sozinha?”, “O que você estava usando?”, “Você estava bebendo?”, “Por que saiu com esse homem?”, “Mas ele não é seu esposo?”. Perguntas que buscam culpabilizar a vítima pela violência sofrida e menosprezar seu relato.

Dados do IPEA mostram que 67,4% das mulheres que engravidaram após terem sido estupradas não tiveram acesso ao aborto legal. Com a desobrigação do fornecimento de informações, a tendência, claro, é piorar. A falta de atendimento adequado será juridicamente legitimada.

Ainda mais preocupante que isso, o fato de aconselhar uma pessoa, que segundo as leis atuais, tem direito ao aborto legal, pode ser passível de prisão. Se uma amiga sua for estuprada, mas não registrar o crime na polícia, informá-la de que ela tem o direito de abortar poderá fazer você pegar de seis meses a dois anos de cadeia. Isso mesmo: com o PL, a não ser que sua amiga estuprada comprove o estupro através de registro na delegacia e exame de corpo delito, apresentar a ela suas opções será crime, porque ela não será considerada vítima de violência sexual.

Clarissa Nunes comentou no blog da Marcha Mundial das Mulheres sobre esta mudança: “(...) a palavra da mulher não basta. Seja para ser ouvida ao dizer ‘NÃO’ para um ato sexual, seja para ser ouvida e acreditada quando contar ter sido vítima de um estupro. Hoje a Comissão de Constituição e Justiça legitima, novamente, a violência contra a mulher. Legitima, novamente, a inexistência de poder das mulheres sobre seus próprios corpos e retira a já fragmentada escolha sobre suas próprias vidas”.

Nesse contexto, as reivindicações feministas em prol desta causa vieram para combater que a palavra da mulher seja posta em dúvida quando relatarem casos de violência e reivindicar o cumprimento dos direitos, já previstos por lei, das vítimas de estupro. O feminismo foi o canal para unir e organizar mulheres que lutaram na tentativa de impedir um retrocesso, o retrocesso em relação a seus corpos e suas vidas. E, unidas, ganhamos força para lutar por estes e outros direitos; pois, ainda que tentem, não nos calarão.

Amanda Castilho
Estudante do 3º ano de Medicina da Famerp


MADAME ZERBINI

LIVRO
A CASA VERDE

A Casa Verde, escrito em 1966 pelo autor peruano Mario Vargas Llosa, conta a história de um prostíbulo montado nos arredores de algumas cidades isoladas do Peru, alterando a vida de seus habitantes. Batizado de “A Casa Verde”, em pouco tempo ela atrai todo o tipo de pessoas, de criminosos a moradores locais, para um caminho de perdição e desespero. Para entender a obra é necessário entender que o Peru, país dividido pela Cordilheira dos Andes, vive de contradições, apresentando mundos muito diferentes. Vargas Llosa trabalha com isso, contrastando ambientes e formas de linguagem.

A obra é muito complexa devido aos extensos diálogos, frequente uso de flashbacks e a falta de um narrador propriamente dito. Entretanto, as ricas descrições dos ambientes contrastantes do deserto e da selva, a alternância da linguagem dependendo do núcleo de personagens em questão e todas as saídas literárias exploradas pelo autor fazem com que a leitura seja sempre interessante e você sempre busque ligações entre os períodos de tempo e os personagens, tentando montar o quebra-cabeça tão habilmente montado pelo autor.

Com um final muito bem escrito e que une os cenários de forma satisfatória, A Casa Verde é um clássico da literatura latino-americana que vale a pena ser lido.

Bruna Eltz
Coordenadora Científica do CAEZ e estudante do 3º ano de Medicina da Famerp

ÁLBUM
A HEAD FULL OF DREAMS

Não é a tarefa mais fácil se manter no topo das paradas quando já se tem 20 anos de estrada e 6 CDs aclamados por crítica e público, ainda mais quando seu trabalho anterior é considerado o ponto mais baixo da carreira. Frente a essa situação, o Coldplay decide dar a cara a tapa com A Head Full of Dreams, apostando em um som mais alegre, pop e divertido; que contrasta com a melancolia que consagrou a banda em trabalhos anteriores, mas que finalmente parece se encontrar no uso de sintetizadores e referências que parecem perdidas em Mylo Xyloto e no controverso Ghost Stories.

Bons frutos dessa nova ideologia, A Head Full of Dreams, Adventure of a Lifetime e Birds trazem um som dançante com um eletrônico mais pesado, principalmente nesta última (provavelmente a melhor do álbum e dos últimos anos da banda) que alia como poucos uma batida bem anos 80 com sintetizadores na medida certa – e um Chris Martin totalmente à vontade nos vocais. Aliás, o vocalista é outro ponto alto do álbum: totalmente diferente dos vocais displicentes e preguiçosos de Ghost Stories, em A Head Full of Dreams o vocalista está tão animado quanto uma criança em um parque de diversões.

Mas onde o Coldplay realmente acerta em cheio em seu novo CD? Naquele velho conjunto piano/voz/o-que-está-acontecendo-com-a-minha-vida? de Fix You, Trouble, The Scientist, etc... Com as faixas Everglow, Amazing Day e Up and Up, tendo elas algum potencial de se tornar um dos antigos hinos para sair da fossa (ou não), que agradam – e muito – os fãs mais saudosos daquele antigo Coldplay. Contrastam como pontos baixos Hymn for the Weekend, que, usando transições bruscas entre o R&B e o indie com um Chris Martin animado a ponto de se perder nos vocais fazem a parceria com Beyoncé parecer um brainstorm de estilos desconexos em uma demo inacabada; e Fun, que poderia facilmente ser mais um dueto sem sentido e emoção de qualquer filme do High School Musical.

Mesmo sem entregar grandes emoções, A Head Full of Dreams apresenta um trabalho maduro e honesto de um Coldplay que parece finalmente encaixar sua nova vibe carpe diem (com tantos woo-hoos e falsetes pra fazer inveja a qualquer música do Maroon Five) em um produto digno de sua redenção do melancolicamente perdido e preguiçoso Ghost Stories, aliando bom uso de referências e instrumental a um Chris Martin devotado a fazer do “ último álbum da banda” (palavras do mesmo) uma experiência que agrada aos melancólicos fãs da era The Scientist e aos good-vibes de Paradise.

Lucas Romagnolli
Estudante do 5º ano de Medicina da Famerp

FILME
COERÊNCIA

Um cometa está para passar sobre Santa Mônica (EUA), onde oito amigos jantam juntos, e além de uma bela vista no céu noturno, ele também pode causar coisas estranhas, como celulares que quebram espontaneamente e serviços de comunicação que não funcionam. Coerência (Coherence, 2013), do diretor e coautor James Ward Byrkit, consegue causar muita confusão mental, unindo algumas teorias da física quântica com histórias populares. Tudo fica ainda mais esquisito quando Byrkit começa a sugestionar doppelgängers de universos paralelos que se colidem.

As explicações não são tão claras – nem deveriam, já que o filme se encaixa perfeitamente na categoria mind-fuck (para os politicamente corretos, mind-bending), e elas passam pela teoria do gato de Schrodinger e de coerência quântica, além das famosas histórias populares de outros cometas que interferiram nas mentes das pessoas. Os oito amigos, ou quatro casais, atravessam uma zona escura que os joga para um universo paralelo aleatório e vão parar num jantar que, aparentemente, é idêntico ao que estavam vivenciando, mas se notar os pequenos detalhes que Byrkit coloca (lightsticks, curativos, conversas repetidas, copos quebrados), você perceberá que já não estão na casa original.

Um dos pontos mais interessante da trama é a montagem da caixa de identificação da casa. Nela é colocado um objeto aleatório, como se ele fosse um código QR, e fotos de cada membro da casa com um número aleatória no verso. Fazendo as contas, os próprios personagens chegam à conclusão que isso poderia sugestionar mais de 5.038.848 universos paralelos diferentes.

Ao final do filme, uma personagem vaga pelos diversos universos, revelando algumas possíveis realidades alternativas que vão desde cenas de brutalidade entre os, antes, amigos; até um cenário perfeito, sem qualquer alteração, de um simples jantar. Isso faz com que o espectador se questione junto com os personagens: “What if we are the dark version? (E se nós somos a versão do mal?)”. Entre alguns scare jumps e piadas bobas, Coherence consegue ser um filme de ficção científica com tema clichê, mas um tanto original.

Camila Kuroda
Estudante do 2º ano de Medicina da Famerp


Desenho feito por Isabele, aluna da Associação Lar de Menores de São José do Rio Preto (ALARME), instituição em que se realiza o projeto de extensão Educação, Música e Esporte (EME). Com grande criatividade, Isabele retrata alguns dos estudantes de Medicina da Famerp que participaram do projeto em 2015.


PALAVRAS CRUZADAS

VERTICAL

1. LINA BO BARDY

3. PORTINARI

6. ONDULAÇÕES

HORIZONTAL

2. MADEIRA

3. PAGODE

4. RAMBRANT

5. URUCUM

7. LEONARDO DA VINCI

8. FRIDA KAHLO

9. GAUDÍ

10. ATENEUS