De onde vem “como” te ensinam medicina?

 Flexner

Antes da criação das escolas médicas brasileiras, os interessados em se tornarem médicos completavam seus estudos na Universidade de Coimbra. Com a chegada da família real ao Brasil, tem-se início o ciclo universitário brasileiro e surgem as primeiras escolas médicas no país. Nesse contexto o currículo para a educação médica foi importado sem considerar as especificidades da saúde locais. A partir de então, no decorrer da história, foram realizadas várias reformas no ensino médico, porém a que surgiu do Relatório Flexner foi, sem dúvidas, a mais importante e que tem influência nas escolas até os dias atuais. Tal reforma trouxe benefícios e prejuízos para a formação médica brasileira.
Em 1910 foi publicado o estudo Medical Education in the United States and Canada – A Report to the Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, conhecido como o Relatório Flexner e que é considerado o grande responsável pela mais importante reforma nas escolas médicas na América do Norte e no mundo. Ele foi escrito por Abraham Flexner que visitou 155 escolas médicas nos EUA e Canadá em 180 dias e concluiu que, dessas todas, apenas 31 escolas tinham condições de permanecer funcionando. A avaliação de tais escolas foi realizado sem um instrumento padronizado, em poucas horas de passeio pelos laboratórios e instalações e por apenas um especialista. Foi essa avaliação referida por pesquisadores no ramo da avaliação de programas como “passeio de mãos nos bolsos” que se tornou o principal instrumento de acreditação das escolas médicas americanas, cujo número de escolas caiu de 131 para 81 após o relatório, e canadenses, além de trazer implicações no ensino médico de todo o mundo ocidental no século XX.
Como Flexner propõe o ensino nas escolas médicas? Ele propõe um modelo de curso médico em quatro anos, nos quais os dois primeiros seriam o ciclo básico realizado nos laboratórios da faculdade e os dois últimos anos seriam o ciclo clínico ministrado fundamentalmente no hospital. Assume o método científico como forma legítima de adquirir o conhecimento. Por suas próprias palavras: “O estudo da medicina deve ser centrado na doença de forma individual e concreta”. Tal declaração coloca a doença como um processo apenas biológico e individual, em detrimento do social e do coletivo como parte fundamental no processo saúde-doença. Alguma semelhança com a maneira que nos ensinam a medicina e o cuidado hoje? Flexner critica as escolas médicas comerciais, afirmando que o ensino médico deve ser um serviço público, defende a distribuição geográfica da mão-de-obra médica de acordo com as necessidades locais, porém aborda brevemente tais assuntos e desconsidera a organização de sistemas de saúde em sua proposta de reforma.A reforma Flexneriana contribuiu para uma formação médica individualista, puramente biologicista, hospitalocêntrica e para a especialização supervalorizada. No entretanto, desde a década de 60, vem sendo elaborado um paradigma para se contrapor o modelo hospitalocêntrico, a partir da proposta da saúde preventiva. Foi na Conferência de Otawa, em 1986, que se firmou a proposta de Promoção de Saúde, ampliando o entendimento de saúde como qualidade de vida. A partir de tal entendimento, ações para aproximação desse caracterizam a construção do paradigma da integralidade, que busca unir a formação dos profissionais de saúde das necessidades de atenção básica. Tal paradigma tem como objetivo uma formação médica mais contextualizada das condições sociais, econômicas e culturais da população; capacitando o profissional para enfrentar os problemas na determinação do processo saúde-doença. Além disso, também estimula a atuação interdisciplinar e das equipes multiprofissionais respeitando os princípios do Sistema Único de Saúde. A implantação desse novo paradigma necessita um novo modelo pedagógico, com metodologias de ensino-aprendizagem centradas no aluno, além de mais interativas.
As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina homologadas em 2014 também prezam por uma formação médica mais generalista e mais voltada para visão geral do indivíduo, não só da doença. Preconiza a inserção do estudante na rede de atenção básica desde o primeiro ano da graduação e mínimo de 30% da carga horária do internato desenvolvida na Atenção Básica e no Serviço de Urgência e Emergência do SUS. Enfatiza a necessidade do conhecimento ético e psicológico do médico e coloca Saúde Mental como uma grande área da medicina, valorizando o cuidado integral do indivíduo.
A mudança de paradigmas é um processo constante e infindável na educação médica. E assim deve ser, nunca devemos deixar de buscar algo melhor, principalmente quando o objetivo é alcançar saúde, promover saúde a partir da educação daqueles que serão os responsáveis pela qualidade de vida da população.
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