A publicidade brasileira não nos representa

A morte dos meus avós fez meus finais de ano passarem do clichê natalino – especial do Roberto Carlos, meu tio vestido de Papai Noel, ceia temperada com discussões familiares – para viagens em família pelo Brasil. O lugar escolhido da vez foi Salvador, em especial porque você e sua irmã precisam aprender a valorizar a beleza do nosso país, depois que os americanos vierem e roubarem tudo não adianta mais e por outras razões igualmente “lógicas”.
A cidade me fez sentir vergonha pelas vezes que reclamei de São José do Rio Preto: infraestrutura precária, parco saneamento básico e gritante segregação social e racial. Os poucos brancos são, predominantemente, turistas carregando pau de selfie ou “essa gente que dá sorte na vida, sabe”, como definiu a guia turística após falar pela terceira vez que os últimos seis andares do prédio mais caro da cidade são da Ivete Sangalo.
Na véspera do Natal fomos visitar a Igreja Nosso Senhor do Bonfim, fonte daquelas fitinhas coloridas que você alguma vez na vida já colocou no braço ou na perna e hoje nem se lembra mais da intenção. No ônibus a caminho, as músicas recém-vazadas da Madonna nos meus fones de ouvido foram abafadas por gritos: um garoto e uma garota irromperam no ônibus e, usando-o como palco, apresentaram uma intervenção urbana de cunho político-social que me marcou profundamente.
Eles dialogaram sobre discriminação, machismo, racismo, xenofobia, opressão, desigualdades. Temas que, para aqueles jovens negros suburbanos que vivenciam diariamente o descaso e a miséria, não são “mimimimi de gente chata, sem senso de humor e que quer aparecer”. Em certo momento, o diálogo questionou o que é ser negro no Brasil e o garoto apontou para o cartaz fixado no ônibus: Gisele Bündchen, com seu sorriso bem pago em parceria com a Grendene, estava celebrando os 30 anos de um projeto que usa a glamourização das tartarugas marinhas para preservar a imagem ecologicamente correta de empresas corruptas.
Após encerrarem, todos no ônibus bateram palmas e o garoto pediu doações de R$2 em troca de um livreto de poesias. Meu pai, em momento de surto após contrair a “doença do turista consumidor-compulsivo”, comprou o livreto que contém poesias marginais sobre assuntos que ele não faz nem ideia do que se tratam.
A partir desse episódio, comecei a notar os anúncios publicitários que invadiam o céu azul e sujavam as praias. A população branca de Salvador estava lá, abundante e escondida nos folhetos, outdoors, cartazes.  Na “capital mais negra do país” (IBGE, 2011), parecia que eu estava em qualquer cidade europeia. Cadê os pescadores, as camareiras do hotel, os vendedores ambulantes, as guias turísticas, os jovens do ônibus? De vez em quando, destoando o mar de caucasianos nas publicidades, surgia o estereótipo da imensa negra baiana com vestido branco, sorriso largo e carregando uma travessa de acarajés.
Voltei para passar a virada do ano em casa, mas continuei na Europa. Na televisão, um anúncio de imobiliária mostrava oportunidades de vendas para “sua família feliz”: a “família feliz” era caucasiana e composta por um homem, uma mulher e um casal de filhos. Na internet, um post no Facebook apoiava a recente declaração de Renato Aragão, argumentando que agora todo mundo não tem censo (sic) de humor…..época chata de se viver. No celular, constantes memes da Peppa Pig – por que não existe a Peppa Pig Preta e por que o desenho animado se parece tanto com a “família feliz” do anúncio da imobiliária?
A podridão ideológica das propagandas não se limita apenas ao racismo anunciado: ela também está presente no machismo predatório dos comerciais de cerveja, na discriminação dos anúncios de utensílios domésticos, na opressão dos folhetos de festas da sua faculdade. Ideologias preconceituosas criadas por grandes empresas, inseridas em campanhas publicitárias atrativas e compartilhadas milhões de vezes no Facebook e grupos do WhatsApp porque são “engraçadas e criativas”. Elas fazem parte do nosso cotidiano e, sem percebermos, logo compramos tais ideias e respectivos preconceitos.
A publicidade brasileira não me representa, não representa meus amigos, os jovens do ônibus e nem a Dona Domingas da barraquinha de acarajé. Não representa o “branquelo marginal”, o “cappuccino boa vida”, o “neguinho cheio da grana”; nem as mulheres que adoram seus cabelos cacheados, nem os casais não heteronormativos, nem os gordinhos que estão 100% nem aí para dietas milagrosas, nem os deficientes físicos… e talvez nem você.

Segue um dos textos extraídos do livreto “Resistência Poética”:

Todas as vezes que chego da rua,
Minha mãe faz questão de me criticar.
Diz que meu cabelo é horrível e que dá pra assustar.
Ao invés de beijos e abraços, sou recebida com piadinhas.
Mainha diz que meu cabelo é ridículo e que eu deveria aderir a chapinha.
Eu me sinto linda, acho meu cabelo lindo.
Fico contente em saber que não é só por estética, é também um ato político.
Pois quando ligo a TV, me sinto decepcionada.
Me procuro nos programas de TV, propagandas; e não encontro nada.
As pretas que vejo, são de cabelo alisado.
Alienadas pela ideia de que o cabelo crespo é feio.
Quero ver as pretas nas ruas, o seu cabelo assumir…
Trançado, dredado, enrolado, encrespado.
Assumindo o cabelo livre.
A beleza que existe no cabelo afro.
Dricca Silva
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